Destes filmes não se leva nada: “Silvio” e “Maníaco do Parque” são duas das piores experiências do ano

É triste afirmar, mas dois dos piores filmes de 2024 são oriundos do cinema brasileiro. Silvio, de Marcelo Antunez, e Maníaco do Parque, de Maurício Eça, não apenas fazem má dramatização de personagens e circunstâncias — na verdade, ambos já começam errando na própria concepção de ideias e nos pontos de vista adotados para suas histórias. Curiosamente, também são obras frouxas — para se dizer o mínimo — na parte técnica, com menção honrosa para Silvio, que nem de longe parece ter custado quase sete milhões de reais para ser produzido. Mas vou me debruçar sobre os dois longas para dar uma dimensão maior do acúmulo de problemas. 

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“Silvio”, de Marcelo Antunez

Começo pela cinebiografia de Silvio Santos por questão cronológica. O filme chegou aos cinemas brasileiros no último dia 12 de setembro, pouco menos de um mês após a morte do comunicador, reconhecidamente o mais célebre e reverenciado a já ter passado pela TV do nosso país. Contudo, nem mesmo a comoção nacional com a despedida de Silvio despertou interesse pelo filme, que fez sua estreia na oitava posição semanal das bilheterias brasileiras, vendendo míseros 51,3 mil ingressos. A tragédia era anunciada: não só o próprio SBT rejeitou qualquer chancela para o projeto (o nome da emissora sequer é citado ou ilustrado no longa) como tudo já havia virado piada logo no lançamento do primeiro trailer.

Nem bem Silvio começa e tudo vem a se confirmar, da incompreensível escalação de Rodrigo Faro para interpretar Silvio Santos ao paupérrimo trabalho de maquiagem. Ainda assim, a mais grave das falhas é anterior, no caso, o roteiro escrito pela dupla Anderson Almeida e Newton Cannito, que adotou como ponto de partida o famoso sequestro do apresentador em 30 de agosto de 2001. É sob a ameaça do revólver do sequestrador que o protagonista, então, relembra momentos cruciais da sua vida, o que, por si só, já é de péssimo gosto — afinal, como alguém pode ter cogitado, entre tantos momentos emblemáticos da carreira de Silvio, que esse seria o recorte mais interessante para reverenciar as lembranças do comunicador?

Estruturalmente, a escolha também é problemática, pois falta verossimilhança às passagens em que Silvio Santos rememora sua vida. Elas são introduzidas por meio de discursos prontos, quando o protagonista, agindo como se fosse um coach, tenta colocar algum juízo na cabeça do sequestrador ou se aproxima dele buscando o ser humano por trás daquela situação crítica. Tudo é motivo para Silvio interromper a conversa e contar histórias em tom autoindulgente, com flashbacks que não revelam nada que já não tenhamos visto em incontáveis reportagens e especiais sobre o apresentador. Além disso, as voltas no tempo são pueris, empenhadas demais em edificar qualidades e acentuar problemas para trazer complexidade a um protagonista unidimensional mesmo.

Nada se vê do processo criativo de Silvio Santos como gestor de um veículo de comunicação ou de sua verdadeira influência como um grande nome da TV — os flashbacks de Silvio em frente às câmeras nada mais são do que passagens rapidíssimas com Rodrigo Faro jogando sozinho aviõezinhos de dinheiro para o nada ou revelando a resposta certa de alguma charada a ser desvendada pelos telespectadores.  É curioso como o longa deixa de lado as proezas de Silvio como apresentador para, no final, valer-se justamente dessas conquistas nos créditos finais, quando menciona o ano em que, pela primeira vez, o SBT ultrapassou a Rede Globo no ibope com os programas Casa dos Artistas e Show do Milhão

O caos fica ainda mais tumultuado quando Silvio se propõe a ser um filme policial. Paralelo às lições de vida que o personagem tenta entubar em seu sequestrador, vemos toda a mobilização da polícia e das autoridades de São Paulo para resolver um problema de dimensão nacional. Do sniper que deseja a todo custo abater o homem que tem Silvio Santos como refém ao próprio governador em conflito sobre até que ponto se envolver na operação, vemos todas as engrenagens se movimentando para criar uma atmosfera de tensão, mas falta urgência, verdade e verossimilhança. Principalmente porque, podem ter certeza, o que menos quero ver em um filme sobre Silvio Santos é dramatização policial, seja em diálogos ou em cena mal coreografada de perseguição e tiroteio.

E há tudo aquilo que fez Silvio virar uma piada desde o seu primeiro trailer. Poucos mistérios são tão intrigantes quanto a escalação de Rodrigo Faro para interpretar o eterno Senor Abravanel. Faro não só nunca foi referência alguma em atuação (e, para um papel dessa magnitude, o mínimo que poderíamos esperar era alguém à altura do desafio) como já estava afastado do ofício há mais de 15 anos, o que está evidente em cena, uma vez que ele não consegue encontrar o equilíbrio entre reproduzir os trejeitos do apresentador e se esquivar de muletas óbvias para construir o papel. Sua personificação de Silvio Santos é inócua, apática e com problemas potencializados pela maquiagem amadora e pouco elaborada, para não nos prolongarmos mais no tópico.

Originalmente intitulado Silvio Santos – O Sequestro, o longa já estava pronto desde 2019 e foi várias vezes adiado, incluindo um longo período de anos sem qualquer novidade sobre sua distribuição. O silêncio se quebrou em abril deste ano, com o lançamento do trailer. É claro que há muitos fatores que definem o adiamento de um filme, ainda mais quando vivemos em um país com problemas crônicos neste no mercado e em um mundo que ficou de pernas para o ar com a pandemia da Covid-19. Entretanto, neste caso, gosto de acreditar que, secretamente, os envolvidos nunca souberam mesmo o que fazer com o filme, como se estivessem envergonhados desde o primeiro momento em conferiram o resultado final. Ainda bem que Silvio Santos não viveu para ver.

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“Maníaco do Parque”, de Mauricio Eça

Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, foi condenado, no início dos anos 2000, a mais de 280 anos de prisão pelo assassinato de 11 mulheres em São Paulo, ainda que tenha respondido judicialmente por apenas sete. Deve ser solto em agosto de 2028, pois, à época, apesar da sentença, o tempo máximo de cumprimento de pena no Brasil é de 30 anos. A lembrança dos horrores cometidos por ele volta à tona agora com Maníaco do Parque, uma produção original do Prime Video lançada no dia 18 de outubro e que, assim como Silvio, comete todos os deslizes possíveis, dessa vez com o agravante de ter uma história cercada por temas delicados em inúmeras frentes.

A direção de Maníaco do Parque fica a cargo de Mauricio Eça, um cineasta cujas credenciais não inspiram confiança — são seus os três filmes fraquíssimos e questionáveis sobre Suzane Von Richtofen, também originais Prime Video. Eça parece querer fazer carreira contando a história de assassinos brasileiros, ideia interessante caso a concepção de seus projetos não fossem tão amadoras ou rasteiras em cada leitura proposta. Se os longas sobre Richtofen já eram duvidosos na forma como radiografavam as camadas em torno de um célebre crime, Maníaco do Parque desce vários degraus e chega ao patamar do mau gosto.

O único aspecto nobre do filme é o desejo de não voltar a dar protagonismo ao personagem-título, perspectiva que vem senddo discutida nos últimos anos com o lançamento de produções como a minissérie Dahmer: Um Canibal Americano, realizada por Ryan Murphy para a Netflix. A decisão pode ser acertada, mas o roteiro escrito por L.G. Bayão adota uma manobra que funciona melhor na teoria do que na prática: a de ter como protagonista uma fictícia responsável por concentrar diversas discussões sociais, ideológicas e éticas envolvendo os crimes, a investigação e as abordagens envolvendo os crimes cometidos pelo Maníaco do Parque.

Acontece que a execução é medíocre. Pior: dá a sensação de que foi pensada para, antes do que qualquer coisa, lacrar em suas afirmações sobre feminicídio, sensacionalismo da imprensa e inércia da polícia. Falta o básico de dramaturgia no texto de Bayão, construído em cima de todas as caricaturas imagináveis. Constrange como Maníaco do Parque olha para os assassinatos a partir da ótica jornalística, conduzida pela personagem Helena (Giovanna Grigio), uma profissional fictícia do ramo e que, sem naturalidade nenhuma, encapsula dilemas com discursos prontos.

Tudo em volta da jornalista é puro estereótipo. Há, por exemplo,o colega mais experiente e egocêntrico vivido por Bruno Garcia que não aceita ser ofuscado pela nova colega. Ambos respondem a um chefe de redação (Marco Pigossi) que adora notícias “fortes” e polêmicas, visando o lucro do jornal. Também existe a irmã psiquiatra (Mel Lisboa) que surge para explicar com explícito didatismo, palavra por palavra, como funciona a mente de um psicopata, da neurofisiologia até o padrão dos comportamentos em sociedade. Para dar um toque pessoal, Bayão, por fim, coloca uma questão mal resolvida da protagonista com o pai recém-falecido, algo dispensável em um primeiríssimo tratamento de roteiro.

Além dessa essência afogada em traços televisivos (no pior sentido dessa comparação) e da péssima representação de dramas estereotipados, o roteiro acaba se afundando mesmo é na mentira. Uma coisa é você adotar liberdades criativas preservando a essência dos fatos, outra é fazer o que bem entender com uma realidade posta. Maníaco do Parque coloca nas mãos de Helena, uma personagem fictícia todo o desenrolar dos fatos e da investigação, como se ninguém mais tivesse cumprido papel algum na captura do serial killer. E, em nome da “atualização”, o filme dá à Helena a chance de estar frente a frente com o Maníaco, chamando-o de lixo e outras tantas coisas para deixar as intenções do projeto bem explícitas. Nada disso existiu, muito menos da maneira representada — e, ao meu ver, tanta imaginação acaba sendo, sim, sinônimo de mentira.

Criticando um sensacionalismo que ele próprio pratica, Maníaco do Parque se revela risível tanto no conteúdo quanto na forma. Caso pudéssemos, em uma realidade alternativa, relevar o roteiro e sua série de furos e fatos mal explicados, não haveria atenuante algum na imaginação de Maurício Eça como diretor. O longa inteiro é acima do tom, caricato, clichê e histriônico. A trilha sonora, seja a instrumental ou o compilado de canções, é um caso à parte: incessante, mal inserida e invasiva. O conjunto final se precariza a ponto de inclusive tolher um ótimo ator como Silvero Pereira, reduzido a maquiagem e a um personagem reativo, sem vida própria, muito menos bem contextualizado. Nessa atrasada onda de true crimes que tem tomado conta do audiovisual brasileiro, é bem provável que Maníaco do Parque seja o maior dos constrangimentos.


From These Movies You Take Nothing: Silvio and The Park Maniac Are Two of the Worst Experiences of the Year

It’s disappointing to say, but two of the worst films of 2024 come from Brazilian cinema. Silvio, by Marcelo Antunez, and The Park Maniac, by Maurício Eça, not only poorly dramatize characters and circumstances, but they also falter right from the outset in the conception of their ideas and perspectives for storytelling. Curiously, both works are, to put it mildly, lackluster on the technical side, with special mention to Silvio, which hardly looks like a film that cost nearly seven million Brazilian reais (aprox. 1.23 million dollars) to make. However, let’s delve into both features to better grasp the full extent of their issues.

SILVIO REVIEW

I’ll start with Silvio Santos’ biopic out of chronological relevance. The film hit Brazilian theaters on September 12, barely a month after the death of the renowned host, arguably the most famous figure to ever appear on Brazilian TV. Yet not even the national sentiment surrounding his passing sparked much interest in the movie, which opened at the eighth spot in the weekly box office, selling a mere 51.3 thousand tickets. This was a disaster in the making: not only did SBT (Silvio’s network) refuse to endorse the project (its name isn’t even mentioned or shown in the film), but the film also turned into a joke when the first trailer dropped.

No sooner does Silvio begin than these doubts are confirmed – from the puzzling casting of Rodrigo Faro as Silvio Santos to the abysmal makeup work. But the gravest flaw precedes these: the screenplay, written by Anderson Almeida and Newton Cannito, uses as its starting point the infamous kidnapping incident on August 30, 2001. Under the threat of his kidnapper’s gun, the protagonist recounts pivotal moments from his life, a concept that is in itself in bad taste. After all, who could have thought that out of all the iconic moments in Silvio’s career, this would be the most fitting way to honor his memory?

Structurally, this choice is problematic, as it renders the flashbacks in Silvio Santos’ life unconvincing. They’re introduced through formulaic monologues, where the protagonist, like a coach, tries to impart wisdom to his kidnapper or connect with him on a more personal level. Silvio uses any excuse to interrupt the conversation and tell indulgent stories through flashbacks that offer nothing we haven’t already seen in countless TV reports and specials on the host. Additionally, these flashbacks lack depth, trying too hard to paint him as virtuous without adding complexity to the one-dimensional protagonist.

There’s no real exploration of Silvio Santos as a creative force behind a media empire or his influence as a television icon. Instead, flashbacks of Silvio in front of the camera are fleeting moments of Faro throwing money around or giving the correct answer to a riddle for the audience. It’s curious how the film ignores Silvio’s accomplishments as a host, only to praise them in the closing credits, mentioning the year SBT first outperformed Globo network with Casa dos Artistas (a “celebrity Big Brother) and Show do Milhão (his version of Who Wants to Be a Millionaire).

The chaos only worsens when Silvio attempts to become a police drama. In parallel with the life lessons Silvio tries to impart to his kidnapper, we see the entire mobilization of São Paulo’s police and government to solve a national crisis. From the sniper eager to shoot the kidnapper to the governor’s dilemma on whether to intervene, the film attempts to build tension but lacks urgency, believability, and authenticity. Above all, the last thing I want to see in a Silvio Santos film is a dramatized police story, whether in dialogues or poorly choreographed chase and shootout scenes.

Then there’s everything that made Silvio a joke since the first trailer. Few mysteries are as baffling as the choice to cast Rodrigo Faro as the beloved Senor Abravanel. Faro, who has never been a standout actor and had been away from acting for over 15 years, fails to capture Silvio’s essence. His performance is devoid of vitality, hindered by amateur makeup that fails to create even a semblance of resemblance.

Originally titled Silvio Santos – The Kidnapping, the film had been ready since 2019 and was delayed multiple times, including a lengthy period without updates. The silence was broken with the trailer’s release in April this year. While there are many reasons for a film to be delayed, especially in a country with chronic issues in its market and a world upended by COVID-19, I’d like to believe that the team secretly didn’t know what to do with this film from the start. At least Silvio Santos didn’t live to see it.

THE PARK MANIAC REVIEW

Francisco de Assis Pereira, the Park Maniac, was sentenced in the early 2000s to over 280 years in prison for the murder of 11 women in São Paulo, though he was only tried for seven. He is scheduled for release in August 2028, as Brazilian law caps sentences at 30 years. The haunting memory of his crimes is revisited in The Park Maniac, a Prime Video original released on October 18. Much like Silvio, it commits every possible misstep, exacerbated here by the sensitive nature of its story.

Directed by Maurício Eça, the filmmaker behind the three subpar and questionable films about Suzane Von Richthofen (also Prime Video originals), The Park Maniac seems like part of Eça’s career choice to depict Brazilian criminals – a premise that could be interesting if his execution weren’t so amateurish. If his films on Richthofen were already dubious in exploring the layers of a notorious crime, The Park Maniac plummets into poor taste.

The film’s only commendable aspect is its decision not to make the serial killer the protagonist, echoing recent discussions around projects like Dahmer: Monster – The Jeffrey Dahmer Story on Netflix. This choice is sound, but the script by L.G. Bayão employs a tactic that works better in theory: centering the story on a fictional journalist responsible for driving various discussions around the crimes, the investigation, and the ethical approaches to the case.

Unfortunately, the execution is mediocre. Worse, it feels like it’s more about making strong statements on issues like femicide, media sensationalism, and police inaction. Bayão’s script lacks basic dramaturgy and is rife with stereotypes. It’s cringeworthy how The Park Maniac approaches the murders through the lens of journalism, led by the character Helena (Giovanna Grigio), a fictional reporter who embodies dilemmas through ready-made speeches.

The story surrounding this journalist is full of clichés. There’s an egotistical, experienced coworker (Bruno Garcia) who refuses to be overshadowed, a newsroom boss (Marco Pigossi) who loves “strong” stories for profit, and a psychiatrist sister (Mel Lisboa) who gives exhaustive, didactic explanations on psychopathology. To add a personal touch, Bayão inserts a subplot about Helena’s unresolved issues with her deceased father, which feels unnecessary in even a first draft.

Besides this essence steeped in (poorly executed) TV-like drama, the script ultimately collapses under its own fabrications. There’s a difference between taking creative liberties that respect the core of real events and manipulating reality as one sees fit. The Park Maniac grants Helena the central role in the investigation, sidelining everyone else involved. To “update” the story, the film even stages a face-to-face confrontation between Helena and the killer, where she calls him “garbage” – an invented scene that only makes the film’s intentions more obvious.

In criticizing the sensationalism it practices, The Park Maniac becomes laughable in both content and form. Even if we were to forgive the script’s holes and inaccuracies, nothing can excuse Maurício Eça’s uninspired direction. The entire film is overdone, cliched, and melodramatic. The soundtrack, both instrumental and the song choices, is incessant, poorly placed, and invasive. The overall result is so lackluster it even wastes a talented actor like Silvero Pereira, reduced to makeup and a lifeless character, stripped of meaningful context. Amid the recent true crime wave overtaking Brazilian audiovisuals, The Park Maniac might just be the most embarrassing of them all.

                         

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