João encara o cinema de formas com as quais eu me identifico muito. Ele, por exemplo, acredita que os filmes trazem mais sentido para as nossas vidas e que eles podem nos tornar pessoas melhores. Foi com esse fascínio muito sensível pela sétima arte que João criou o blog Olhar Além da Tela, onde busca instigar as pessoas a explorarem o mundo do cinema de uma forma mais emocional e, assim, olharem para elas próprias e para as suas vidas. Nosso contato é recente, mas as afinidades cinematográficas são muitas, o que logo se converteu nesse convite para a coluna. Consolidando Giuletta Masina em Noites de Cabíria como a performance mais citada desde o início desse espaço, esse querido colega da crítica também trouxe interpretações inéditas por aqui: a de Al Pacino em Parceiros da Noite e a de Celia Johnson em Desencanto. Garanto a vocês que vale a leitura! Obrigado demais, João!
Giulietta Masina (Noites de Cabíria)
Noites de Cabíria foi meu primeiro contato, e acredito que o de muita gente também, com Giulietta. Uma das obras-primas de Federico Fellini que conta a trágica e cômica história de uma prostituta que procura bondade e felicidade em um mundo cínico. Um filme que ainda ressoa e impressiona por sua honestidade. Nas últimas semanas, eu tive a oportunidade de ver o espetáculo Luz e Neblina, livremente inspirado no clássico de Fellini, do Grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum, que encheu o Grande Teatro Cemig Palácio das Artes aqui em Belo Horizonte. Uma peça que mistura teatro e cinema como pouco se vê. Ainda que uma ótima oportunidade de engrandecer ainda mais essa história, sinto que apenas Giulietta soube, com precisão, dar para Cabiria a inocência, presença, ingenuidade, doçura e esperança que residem em cada um de nós. Como podem apenas os olhos dizerem tanto? Quando tudo parece perdido, quando não há mais esperança dentro do seu coração, é possível sorrir? Encontrar conforto nesse pandemônio? Giulietta, que eu carinhosamente chamo de Fernanda Montenegro italiana, entrega em Noites de Cabíria uma performance de uma vida inteira. Assim como Fernanda, que amamos e é um ícone brasileiro, Giulietta foi destemida. Transmitiu raiva, desesperança, mas também fé. No final do filme, nos inclui na história e nos chama para olharmos o mundo com outros olhos. É nisso que me agarro todos os dias. Não em um “Deus”, uma religião, alguma pessoa, mas no mundo como ele é. Cruel, terrível e, ainda assim, belo.
Al Pacino (Parceiros da Noite)
A performance de Al Pacino causou muita controvérsia e discordância dentro e fora da produção de Parceiros da Noite. A repercussão negativa do filme na época provocou protestos, boicotes e, posteriormente, o próprio diretor, William Friedkin, demonstrou ter tido problemas com ele sobre a forma como cada um enxergava o final do filme. Apesar de todos os obstáculos, acredito, desde a primeira vez que assisti Parceiros da Noite, que sua performance e o contexto transformaram seu personagem exatamente naquilo que a história pedia. Já escrevi sobre esse filme antes, sobre a forma como explora a violência que existe em todos nós, contra o outro ou contra nós mesmos. Do que somos capazes quando não aceitamos aquilo que é “outro” em nós? Daquilo que é diferente? Al Pacino, que não sabia nada sobre aquele universo e a atmosfera do filme, parece transpor perfeitamente sua própria inocência, ingenuidade e ignorância no personagem quando confrontado com aquele mundo. Longe da sua zona de conforto, ele não falou sobre o filme por muito tempo. Enfrentou muita represália, mas conseguiu entregar uma performance tão complexa e paradoxal quanto o próprio personagem. Parceiros da Noite é um filme à frente de seu tempo. É uma experiência perturbadora e inconvencional que afeta as pessoas em seus níveis mais profundos.
Celia Johnson (Desencanto)
Desencanto é o único filme que assisti com Celia Johnson, mas nunca esquecerei seu rosto. Seus momentos de reflexão, sua batalha interna imensurável expressa delicadamente, mas poderosamente pelo seu rosto. É um filme com um texto e performances que marcam para sempre. O romance de um amor impossível é algo que, até hoje, nos comove de inúmeras formas. Talvez por não ser algo tão simples como um “felizes para sempre”. Mexe com nossas expectativas e nos obriga a enxergar a vida como ela é. Existe amor mesmo que duas pessoas não possam ficar juntas. Eu já fiz teatro por alguns anos. Em um momento da minha vida em que ainda não entendia realmente o potencial e o significado do que é atuar. Acho que muitos de nós esquecemos. Focamos tanto em nós mesmos e esquecemos que atuar é dar espaço para o outro existir em você. A arte da atuação exige muita empatia. Você cede um pouco da própria identidade, para que o personagem venha através do seu corpo. É um ofício de humildade, humanidade e entrega. Acredito que é dessa paixão de onde vêm as melhores performances. Algumas vêm do acaso, do contexto, do tempo, e outras parecem boas demais para serem atuações, se é que vocês me entendem. Ainda que seja uma atuação, o que eu vejo na tela é de verdade. Eu sinto dor, amor, medo e todos os sentimentos comuns a todos nós. Por isso sempre amei cinema, teatro e todas as formas de arte. É um espaço seguro para que exploremos o melhor e o pior de nós. Um lugar para pessoas como Giulietta, Al Pacino e Celia, ainda que tenham ou não passado por coisas parecidas com seus personagens, possam criar algo do abstrato. Transformar e se permitirem serem transformados. Fazendo sentido ou não, é assim que enxergo tudo isso.