“The Great Lillian Hall”: Jessica Lange tem muito a dizer, o filme nem tanto

Life’s gone on as if I had never lived at all.

greatlillianhall

Direção: Michael Cristofer

Roteiro: Elisabeth Seldes Annacone

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Lily Rabe, Pierce Brosnan,  Jesse Williams, Michael Rose, Cindy Hogan, Keith Arthur Bolden, Jonathan Horne, Clayton Landey, Allison Mackie

EUA, 2024, Drama, 110 minutos

Sinopse: À medida que dedica seu coração, alma e tempo na preparação para seu próximo grande papel, a querida estrela da Broadway Lillian Hall (Jessica Lange) se vê surpreendida pela confusão e pelo esquecimento. Lutando contra todas as adversidades para chegar à noite de estreia, enquanto tenta manter suas memórias e identidade que estão desaparecendo, ela enfrenta uma tumultuosa jornada emocional: equilibrar seu desejo pelos holofotes com a dura realidade de sua doença recém-diagnosticada.

greatlillianhallmovie

Como fazer um filme sobre demência depois de Meu Pai? Vez ou outra, acontece isso: uma obra eleva tanto a régua para certos temas que as expectativas títulos subsequentes se tornam quase ingratas. The Great Lillian Hall, telefilme que a HBO estreou no último 31 de maio, não deixa de padecer dessa comparação. Enquanto Meu Pai rompia formalidades narrativas e inovava no modo com que colocava o espectador no lugar de seu protagonista, o recente lançamento da HBO cai na vala comum de filmes sobre demência, tanto em forma quanto em discurso.

No centro da história está Lillian Hall (Jessica Lange), consagrada atriz da Broadway que, prestes a estrear um novo espetáculo, começa a vivenciar esquecimentos e alucinações. Em pouco tempo, descobre ter uma doença análoga à demência que lhe tirará a memória e as palavras, pontos cruciais para o exercício da arte de interpretar. O lugar-comum começa por aí: filmes sobre a perda da memória sempre buscam protagonistas cujas profissões dependem da palavra, a exemplo da escritora Iris Murdoch vivida por Judi Dench em Iris e da professora interpretada por Julianne Moore em Para Sempre Alice, papel que lhe valeu o Oscar de melhor atriz.

Os conflitos imaginados pela roteirista Elisabeth Seldes Annacone, em seu primeiro roteiro de longa-metragem são muito protocolares. Da filha ressentida pela ausência de uma mãe ocupada com o trabalho estelar aos esquecimentos que a atriz tenta a esconder a todo custo para provar que pode, sim, seguir como protagonista de seu mais novo espetáculo, The Great Lillian Hall pouco avança na construção da angústia que é ver uma pessoa percebendo seu próprio desaparecimento. A saída encontrada pela roteirista é colocar os esquecimentos convenientemente em momentos cruciais para dosar a urgência da situação — ainda que o fato de Lilian estar com frequência nos palcos seja um bom elemento de tensão, pois, neles, ela se vê socialmente exposta e vulnerável.

Contrastando com o filme em si, Jessica Lange, em papel que quase foi de Meryl Streep, tem muito a dizer no papel da protagonista. A escalação vem em boa hora, uma vez que Lange, a um passo de se tornar EGOT (falta apenas o Grammy), tem tido oportunidades muito melhores em séries e minisséries nos últimos anos (American Horror Story, Feud: Bette and Joan) do que em longas-metragens. A última vez que ela protagonizou um filme foi, salvo engano, em Grey Gardens, curiosamente outro telefilme da HBO, ao lado de Drew Barrymore. Quinze anos sem uma oportunidade dessa dimensão é muito para uma atriz como Lange. Ela reconhece a oportunidade e imprime toda emoção e a dimensão à personagem principal.

A atriz dribla obstáculos que poderiam dificultar o trabalho de intérpretes menos talentosas. Um deles é, além dos já citados, a falta de elementos suficientes para sentirmos que Lillian é, de fato, uma lenda da Broadway, seja por seu background ou pelas próprias referências a seu nome,. Aliás, o próprio showbusiness ganha traços rasteiros, com citações a quotes óbvias (Uma Rua Chamada Pecado, A Malvada, etc.) e até algumas situações que exigem suspensão de crença, como o fato da produtora do espetáculo ter tantas opiniões sobre o estado debilitado de Lillian, mas nunca realmente tomar uma atitude drástica sobre isso. Pois Lange tira de letra e expõe, com emoção e humanidade, todo o talento que o filme diz que sua protagonista tem, assim como suas fragilidades, dúvidas e angústias diante de um inevitável deterioramento. É a interpretação que faz poderia muito bem adaptar o título para The Great Jessica Lange.

Deixe um comentário