Três atores, três filmes… com Henrique Perez

treshperezHenrique e eu temos algumas coisas em comum — ambos somos, por exemplo, jornalistas com experiência em assessoria de imprensa, produção de conteúdo e gestão de redes sociais, além, claro, de cultivarmos um profundo amor pelo cinema —, mas a que mais me marca é o imenso carinho que compartilhamos por atrizes, sejam elas brasileiras, de língua inglesa ou de qualquer parte do mundo. Por isso, não foi nenhuma surpresa encontrar em sua seleção escolhas preciosas e que trazem uma diva como a eterna e insubstituível Marília Pêra, uma veterana britânica que brilha em uma franquia de cifras bilionárias e uma estadunidense que, mesmo prolífera e versátil, ainda está por receber seu devido reconhecimento. Todas com desempenhos aqui lembrados por meio do olhar sempre sensível de um cinéfilo repleto de afeto pela arte de interpretar. 

Marília Pêra (Pixote: A Lei do Mais Fraco)
A performance de Marília Pêra em Pixote: A Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, possui uma reputação que transcende o filme e sobre a qual eu ouvi durante muitos anos antes de finalmente assisti-la. Qual foi a minha surpresa, quando ao ver o filme, não vi Marília na primeira hora e meia de exibição. Como uma performance que mal aparece no filme poderia ser tão famosa, tão lembrada, tão premiada? Mas eis que na meia hora final chega Marília, ou melhor, Sueli, como um furacão. E nada ficou no lugar. Nem no filme nem em todos os conceitos que eu tinha sobre essa (grande) atriz. Absolutamente visceral, sem nenhum pudor moral ou físico em embarcar em lugares obscuros da psiquê humana, Marília se mistura sem vaidade entre os não atores e se conecta com Pixote como nenhuma outra pessoa do filme. É impressionante o quanto ela mostra (sensualidade, maternidade, humor, dor…) e o quanto ela provoca (repulsa, empatia, constrangimento…) com tão pouco, transcendendo talvez a função que Héctor Babenco havia inicialmente concebido pra ela no filme.

Parker Posey (O Melhor do Show)
O universo cinematográfico dos mocumentários de Christopher Guest é um deleite para apaixonados por atrizes. Como esquecer a composição absurda de Catherine O’Hara como uma atriz em campanha por uma indicação ao Oscar em For Your Consideration? Ou a balança perfeita entre humor e emoção genuína da mesma Catherine O’Hara em A Mighty Wind? E dos grandes momentos de Jennifer Coolidge em obras audiovisuais pré-White Lotus? Parker Posey, uma das melhores atrizes do cinema norte-americano dos últimos 30 anos, ainda não devidamente celebrada (assim como a obra de Guest como um todo), é peça fundamental desse universo. Em O Melhor do Show, ela interpreta a dona de uma Weimaraner que vai participar de uma competição de cachorros. Completamente desprovida de vaidade e autoconsciência como atriz, Posey vai ao limite do humor para mostrar o ridículo do ser humano e garante que todas suas cenas (algumas criadas por ela própria) sejam inesquecíveis. Sua personagem, neurótica e desequilibrada, é um exemplo clássico de um ser humano medíocre que se dá importância demais. A atriz, por sua vez, é o exemplo clássico de uma artista talentosa cujo talento se sobressai ainda mais por ela não se levar a sério.

Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)
Na pele de Dolores Umbridge, a subsecretária sênior do Ministro da Magia, transformada em professora e posteriormente diretora de Hogwarts, Imelda Staunton rouba o show de tal maneira no quinto filme da saga Harry Potter que, mesmo ela dando vida à criação mais repulsiva criada por J. K. Rowling (se desconsiderarmos alguns de seus tweets recentes), é impossível tirar os olhos dela em cada momento que ela está na tela. É um trabalho minimalista, tão assustador quando divertido, e jamais caricatural (há algo de quase humano na excessiva insegurança de Dolores). Em cada revisitada ao filme, você descobre novos detalhes na composição da atriz que fazem você odiar Umbridge e admirar Imelda na mesma proporção.

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