“Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

I do my job.

Direção: Chinonye Chukwu

Roteiro: Chinonye Chukwu

Elenco: Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Michael O’Neill, Richard Gunn, LaMonica Garrett, Vernee Watson, Dennis Haskins, Alex Castillo, Alma Martinez, Michelle C. Bonilla

EUA, 2019, Drama, 112 minutos

Sinopse: A diretora (Alfre Woodard) de uma prisão de segurança máxima para homens é confrontada com seus próprios demônios psicológicos e emocionais, quando desenvolve um vínculo com o prisioneiro (Aldis Hodge) no corredor da morte que ela está programada para executar. (Adoro Cinema)

A primeira cena de Clemency, filme que venceu o Festival de Sundance em 2019, é muito impactante. Nela, Bernardine Williams (Alfre Woodard) cumpre os protocolos habituais daquela que é uma das tarefas mais recorrentes de seu cotidiano profissional: executar presidiários condenados à pena de morte. Dessa vez, entretanto, o destino parece dizer alguma coisa: os médicos não encontram uma artéria apropriada no braço para injetar o líquido que levará o homem em questão à morte. Também não encontram no pé. Até que, a muito custo, localizam a artéria femoral, situada ao longo das coxas. Algo segue dando errado: o homem começa a ter uma espécie de convulsão, e sangue passa a escorrer da artéria onde está sendo injetado o líquido fatal. Nada, no entanto, evita o óbito do condenado, mesmo com um ritual problemático e tão traumático que parecia um presságio para algum tipo de reviravolta.

Claro que toda a circunstância é inegavelmente perturbadora, mas a sequência incomoda pela expressão indecifrável, rígida e esvaziada de Bernardine naquele momento. Como a diretora de um corredor da morte, ela está acostumada a executar pessoas e enxerga tudo aquilo apenas como uma profissão, excluindo da equação o fator humano ou a brutalidade de um sistema punitivo tão tortuoso como o dos Estados Unidos. Realmente é possível alguém viabilizar um punhado de execuções com alguma naturalidade? Quantos óbitos dessa natureza um ser humano precisa testemunhar para tratar essa tarefa como mais uma entre tantas outras de uma checklist profissional? Também cito essa cena específica, pois é dela que nascem as duas abordagens fundamentais para compreender e discutir Clemency.

A primeira é hipnotizante: a do filme como estudo de caso de uma personagem. E não qualquer personagem, mas uma mulher negra bem sucedida e de personalidade, responsável por um setor onde só circulam homens. A rigidez com que Bernardine coordena o corredor da morte é abalada quando ela recebe a notícia de que, em virtude dos problemas ocorridos na execução do mais recente condenado, uma investigação acerca desse trabalho será conduzida no presídio. Mais importante do que isso, o assunto passa a repercutir dentro e fora do local, e Bernardine, talvez pela primeira vez afetada pela natureza da sua profissão, começa gradualmente a ter problemas de sono, a frequentar bares com maior frequência e a se tornar uma pessoa cada vez mais impenetrável. É um turbilhão interno de emoções muito discreto, sem o mínimo traço de obviedade.

Já o segundo recorte é menos sutil e contundente: aquele que leva Clemency para uma discussão sobre os dilemas e as contradições da pena de morte. Tal abordagem é desenhada com propriedade mulher e negra, a diretora Chinonye Chukwu é efetiva ao dosar dilemas íntimos e coletiva dentro desse contexto marcado por discussões raciais , mas o que não funciona é a atenção excessiva a uma subtrama onde acompanhamos a trajetória emocional de um presidiário negro que, supervisionado por Bernardine e defendido por um advogado em conflito com sua profissão, tem a esperança de conseguir escapar da execução. A subtrama tira a harmonia do filme porque corta tempo de tela da hipnotizante protagonista e porque, apesar dos comentários sociais e das reflexões que busca trazer, o personagem simplesmente não desperta o devido interesse.  

Sem fazer da história um relato de emoções mais clássicas e lacrimosas como Os Últimos Passos de Um Homem ou À Espera de Um Milagre, dois célebres títulos também ambientados em um corretor da morte, Clemency se apropria da rigidez da protagonista como parte de sua própria personalidade como filme. Faz sentido e funciona: na medida em que Bernardine ferve um punhado de sentimentos tempestuosos, a diretora não deixa que as eventuais angústias e desesperos da protagonista se traduzam em diálogos espetaculosos ou em conflitos hiperbólicos. Mesmo o casamento desgastado de Bernardine, que poderia ser considerada a faceta mais tradicional da trama, é desenvolvido uma dinâmica muito particular entre o casal. O próprio fato de ela ter que lidar diariamente com a morte também não é o fim do mundo, algo pouco habitual em longas dessa temática.

Ao alternar entre a história da protagonista e a jornada do detento que está prestes a ser executado, Clemency, ao invés de se complementar, resulta indeciso entre a vontade de ser o íntimo conto de uma mulher bastante particular e a reflexão acerca do sistema prisional estadunidense. Do micro ao macro, o filme se desencontra com frequência, mas acaba sempre voltando para aquilo que eleva a sua potência: Alfre Woodard. Solenemente ignorada na última temporada de premiações, inclusive pelas associações de críticos que costumam garimpar desempenhos fora da curva como esse, Alfre é uma gigante em cena. Com uma presença pulsante, ela é enigmática e transparente nas mesmas proporções para o espectador, canalizando uma imensidão de sentimentos em um desempenho milimétrico e também muito livre em criações e sentimentos. Em suma, Clemency tem sim suas virtudes, mas, no frigir dos ovos, o show é todo (e somente) de Alfre.

Um comentário em ““Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

  1. Que texto, Matheus! Fiquei curiosíssima para assistir!

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